sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

as histórias de uma régua

qualquer coisa pode ser tão simples quanto se queira, mas quem é que chega num consenso? você tem um objeto qualquer e ele pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. a relação entre objeto e a pessoa observadora é mediada pela imagem que esta faz daquele, que vai se formando pelas experiências - únicas! - de cada pessoa.

uma régua, uma simples régua, pode ajudar a desenvolver esse assunto e ilustrar um pouco do que estou tentando dizer.

a gente conversa com alguém que tenha algum interesse linguístico e talvez venha a ouvir dela que régua é cognata de regra ou regular, isto é, elas têm um mesmo radical e uma mesma significação comum. talvez dissesse mais: régua vem do latim, regula, que veio do verbo regere (determinar, dirigir, guiar), ligado a rex (rei), mais ou menos o que se espera de um cara com uma coroa.

por causa do rei, quer dizer, da ideia que se faz de um rei, a gente pode puxar a ideia de reino e lembrar que num mundo menos globalizado, cada reino tinha suas próprias unidades de medida. com saltos rápidos nesse intrigante mundo das ideias, passamos da linguística para a física. nas antigas redes sociais, quer dizer, naquelas em que a gente se relacionava uns com os outros ao vivo, sem o intermédio de um computador, os professores da disciplina justificavam a necessidade da criação do sistema internacional porque era tudo uma zona. cada reino tinha um tipo de medida. o que muita gente especula é que algumas dessas unidades de medidas eram baseadas na anatomia do rei: o tamanho do pé, o comprimento da ponta do nariz à ponta do braço...

de qualquer forma, régua é um instrumento de medição e isso me faz lembrar da juliana. não que eu já tenha medido a ju com uma régua, nada disso. a história é um tantinho mais complexa. eu devia estar na sexta ou sétima série, num tempo em que a gente ainda chamava o ensino fundamental ii de ginásio. empresta a régua, pergunta a ju, se voltando pra mim. acho que ela sentava na minha frente na aula de história. aham, respondo, pode pegar aí no estojo. a juliana acha a régua no estojo, mas se volta de novo e fica me encarando. se ainda hoje uma mulher consegue me desconsertar quando faz isso, dependendo da intensidade, imagina quando devia ter os meus doze ou treze anos e um mundo de inexperiências nas costas. devolvendo o olhar, lanço um que foi. o que está escrito aqui, aponta a menina pra régua. eu nem lembrava do que estava escrito, mas com um rápido olhar, respondo um "je", com a incômoda sensação de que não era bem isso que ela estava perguntando.

então é hora da gente se lembrar de como os significados variam conforme as experiências do observador ou observadora. uma pessoa fora do contexto dessa história talvez até achasse peculiar um "je" estar marcado na régua de um erick, mas bem capaz que não daria muita importância ao fato. e essa seria uma atitude bem razoável, já que a régua com "je" era de jefferson, não de um erick. o garoto tinha ido em casa para desenhar com meu irmão e esqueceu a régua lá. eu achei a régua jogada em casa e guardei pra mim. por outro lado, a ju, ainda que esteja nessa história, tinha vivido outras experiência e desenvolveu um processo de significação alternativo.

jota de juliana, e de erick... ela conclui sustentando um sorriso divertido.

na minha época isso era muito comum. a gente começava a gostar de outra pessoa e saíamos marcando as iniciais dos dois por aí. e bem que essa interpretação da juliana podia ser a real: apesar de um pouquinho mais alta que eu (não sei por que, mas via isso como um problema na época), ela era mó gatinha. é só que juliana não era a garota que estava gostando. essa daí sentava perto da gente e não queria acabar com minhas chances se ela ouvisse essa história de erick e juliana na régua. bobo... fosse o erick de hoje, teria um ou outro conselho para o erick de então. por exemplo, teria revertido a situação com algo como: ok, gata, o que a gente faz com isso agora. mas nesse caso, o erick de hoje não seria esse que escreve, não teria vivido essas e outras experiências pra se motivar a escrever essas memórias e reflexões.

ah, sim, se alguém ficou interessado como terminou a história: eu gaguejei e não fui muito convincente sobre a história real, a ju não insistiu, nunca fiquei com ela ou com a bonitinha que já não lembro o nome.